domingo, 7 de julho de 2019

TEI - Quando o entendimento vem (Parte I)


Na maioria do tempo,  minhas características e personalidade são evidentes pra quem convive comigo, sou uma pessoa feliz, amorosa, compassiva, tranquila, bem humorada, leve, preocupada com as pessoas, carinhosa, divertida, calma, relevante e engraçada.

Amo as pessoas por quem são, e não espero que elas possam me retribuir em nada, convivo com quem quero, quando quero e se quero, porém se tratando de necessidades ou socorro, os que estão próximos de mim sabem que naquilo que puder estarei junto, mesmo que seja em silêncio, apenas para ouvir, orarmos juntos ou não fazermos nada juntos...

Profissionalmente sou rígida e perfeccionista, espiritualmente sou detalhista, gosto das coisas corretas, bem feitas, o meu prazer é me antecipar a episódios ruins, me programar para eventos difíceis. Mas nunca havia percebido que me prevenir ao stress das situações através do controle que pensava ter de tudo ao meu redor, na verdade, inconscientemente era pra fugir das minhas reações impulsivas. Por nunca saber como seria, o medo da reação indesejada ocorrer sempre foi constante, um pesadelo.

Eu preciso me antecipar a contratempos, saber o que vem depois, me organizar para isso, vc sente  também esta necessidade? A falta de controle também te deixa insegura como reagir? 

Profissionalmente, a quase 35 anos, ascendendo sempre a cargos de confiança nas empresas por onde tenho passado, estou diariamente exposta a situações de grande stress, desafios administrativos e financeiros, metas, além das minhas próprias cobranças. Eu amo o que faço, amo criar, administrar, comercializar, sou workaholic com orgulho, lembra?!

Acredite, este episódio que vou narrar, se vc não me conhece entenderá porque farei a narração em partes, se vc me conhece vai perceber algo muito familiar.

Já ouviu falar do TEI? Ocorre do nada dentro da gente, não é um sentimento e nem um pensamento premeditado ou construído, simplesmente, de forma repentina e exagerada somos impulsionados a reagir a uma situação de ameaça, ou que entendamos como ameaça em algum lugar do nosso cérebro, não de forma racional. Por não dar tempo de pensar, é uma reação interna, movida por uma fúria e intolerância descontrolada REPENTINA NÃO PREMEDITADA, que pode resultar; em gritos,  em respostas impacientes, cruéis e raiva incontida, elevando ao exagero uma situação que, na maioria das vezes é muito menor em importância. E agimos de forma exagerada, por nos sentirmos "injustiçados",  algumas pessoas brigam no transito, em festas, na rua, no trabalho, falam palavrão, gritam, choram, ou  fazem tudo junto. Alguns casos, em algumas pessoas, atingindo mais em porcentagem os homens, batem, agridem e até matam, num momento de descontrole.

Quando em momentos de forte "provocação externa" (quero dizer que não requer uma reação tão forte), como por exemplo, uma ligação de um cliente falando mentiras ou algo dito de forma injusta com pessoas desconhecidas, em casos como estes, quase sempre resultará na intolerância do ouvir e se conter. 

Você já ouviu falar de TEI - Transtorno Explosivo Intermitente? Se não, não se preocupe, eu também não havia ouvido falar por 48 anos. Mas posso te confessar, que quando ouvi sobre isso, pela primeira vez foi assustador, porém com o passar do tempo, muita coisa fez e faz sentido...

O TEI não começa do nada e é em extremo agressivo, com quem sofre e com quem está por perto. Você vai entender...

Calma! Muita calma nesta hora...
Eu não sofro especificamente de TEI, mas creio que tenho traços, depois de algumas reflexões de terapia, e confesso que me trouxe grande alívio descobrir que não era apenas uma luta espiritual...
E afirmo, traços não são o transtorno em si, porém eu também creio que não houve progresso deste desgaste de carregar algo tão pesado, justamente pela minha busca incessante por "cura"...
Acompanhe que vc vai entender...

Me expor é a parte mais difícil, mas assim como me ajudou e me trouxe alívio, eu creio que acontecerá o mesmo com vc...

A história começa simples; alguém, que sou muito grata, começou a me questionar por algumas vezes "porque, para que e afim de que eu reagia a determinadas situações?" E me pediu para responder a mim mesma se, era de fato necessário, se a situação carecia de tamanho desgaste e pensar se, o preço que pagaria pela minha exposição negativa não me traria prejuízos emocionais ainda maiores e até mesmo, prejuízos profissionais.

Antes de narrar a minha experiência pessoal, deixo aqui um motivo para você pensar; entre tantos que me julgam por toda a minha vida e não são poucos os motivos (as vezes só de olhar, nunca nem teve qualquer contato comigo na maioria das vezes); aparência, altura, minha cara, meu cargo, minha organização, minha postura séria, minha forma de falar, meu jeito de ser, vestir, me expor nas redes sociais, a família que tenho, se sou ou estou solteira, porque sou divorciada, etc e tal...) se pergunte; quantas vezes eu critiquei, julguei e sentenciei alguém? Mesmo só, ali no silencio do travesseiro em meus pensamentos, ou até mesmo para amigos, colegas de trabalho ou familiares, pensando "num bem comum" e destrui ainda mais a auto estima de alguém que está perto de mim, sem ao menos me questionar o por que daquela pessoa ser "assim"? Cuidado, aquilo que te irrita ou vc odeia nas outras pessoas pode ser um traço de personalidade que te incomoda muitíssimo, e vc não nem tem consciência disso...   

Sou absurdamente grata ao amor de Deus, por conhecer o clamor do meu coração por anos de sofrimento, e por ter tocado o coração de alguém que não tinha a menor obrigação, muito menos intimidade e nem motivos, muito pelo contrário.  As vezes o socorro vem de onde menos esperamos, neste caso, veio do meu superior, ele, podendo "reagir" a fim de proteger sua própria imagem (por eu ser a sua subordinada) ou me convidar a sair da empresa para o bem comum, decidiu não me julgar e "estender a mão" para me ajudar a entender algumas emoções que eu mesma não tinha conhecimento. 

E como funciona na pratica tudo isso? Agora sim, vale dizer...
Em alguns momentos de injustiça, do mais simples ao mais complexo, a fúria aparece, me sinto descontrolada, a ponto de me alterar no tom de voz e  sentir dores no peito, rigidez dos músculos, respiração ofegante ou falta dela (a ponto de respirar pela boca e precisar sentar), as  vezes  me retiro para chorar,  com uma sensação de que vou morrer ou passar mal, já que nunca em momento assim passou em minha cabeça o desejo de destruir objetos. Isso é outra coisa que nunca consegui entender, mas sempre relacionei com os abusos que sofri ao longo da infância/adolescência/juventude e da vida no geral, que fizeram da minha personalidade uma pessoa introspectiva, com sensação constante de rejeição. Porém uso outro tipo de força; imponho minha altura e olhar, num momento de explosão e isso intimida qualquer um, (inclusive a mim, quando vejo o medo da pessoa em seu olhar, sinto medo de mim), mas nunca cheguei a vias de fato com nada ou ninguém, graças a Deus.

É uma luta diária em oração, que por anos imaginei que fosse espiritual, hoje entendo que não, porque por anos orei sobre isso, suplicando a Deus, muito angustiada,  que contivesse "isso dentro de mim", porque é a causa de muito sofrimento e vergonha quando ocorre, mesmo que não seja todos os dias (hj graças a Deus em episódios cada vez mais esporádicos por causa do pedido que tenho feito a Deus: - "coloque o silêncio no meu coração.") .

Tudo é muito legítimo quando acontece, não há racionalidade nenhuma na circunstância, mas é legítimo. Porém a conta chega cada vez que acontece; o prejuízo emocional é, a falta de confiança nas minhas emoções e sentimentos (já que nestes momentos tudo que sai da minha boca é carregado de exageros excessivos), a visão que tenho do outro é sempre de uma postura dura e que "ele (pessoa) é culpado por eu estar reagindo",  a não aceitação da visão do outro inclusive, de que ninguém é capaz de compreender os fatos que me levaram a fazer ou falar daquela forma. A sensação (no pico da reação) de incompreensão por parte de todos,  de que estou sendo observada a todo instante, que as pessoas tem medo de mim,  me odeiam e falam o tempo todo de mim pelas costas. Minha auto estima é abalada profundamente, arregaçada por dias ou meses, sempre que ocorre uma explosão, até que eu me recupere e acredite que nunca mais serei acometida deste mal, será que não serei?

Continua...